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Saga de Bravos -Patricia de Luna
Código: 15

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Sinopse

"Saga de Bravos traz para você uma incrível história envolvendo três personagens principais, cujas vidas se encontram entrelaçadas há mais de 2000 anos, desde a época de Jesus Cristo. Um triângulo amoroso, onde dois homens, dois imortais, caminham na Terra disputando o amor de uma incrível e improvável mulher, que sempre renasce e vive dividida e impossibilitada de ficar com o seu eleito, numa busca incessante, frenética e misteriosa. Esses dois homens estão condenados a cavalgar juntos até o Armagedom, mas têm uma visão antagônica sobre a Humanidade: de um lado, Templários; do outro, Hassassins. É o sonho de ver a mudança versus o ímpeto de solucionar pela espada. Uma saga épica, com passagens históricas (crucificação de Jesus Cristo, Cruzadas, Cátaros, Corte do Rei Arthur), lugares sagrados, aventura, fantasia, amor, sexo, encontros, desencontros, guerras e paz. Você irá se encantar, perder o fôlego, aprender e se emocionar com esta fantástica história."

Sobre a autora

"Patrícia de Luna está ligada à arte de contar histórias desde sua infância, quando aos 12 anos montou sua primeira companhia de teatro. No ano de 2000, foi estudar escrita criativa na West Dean, em Sussex, Inglaterra, e posteriormente também estudou teatro na Shakespeare Company, também na Inglaterra. Fez estágio na BBC de Londres nos programas de Arqueologia Bíblica. De volta ao Brasil teve um musical infantil montado e escreveu dois livros: a biografia de Christina Oiticica (esposa de Paulo Coelho) e um infantil. Viajou por várias cidades europeias pesquisando locais e informações que compõem a trama de “Saga de Bravos”, seu primeiro romance adulto. Atualmente, Patrícia dedica-se à literatura, é roteirista de TV e mora no Rio de Janeiro, sua cidade natal. Quando tem tempo, dedica-se ao aprimoramento na arte do Arco e Flecha!"

                                                   

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                              Saga de Bravos

 

 

                                           Patricia De Luna             

 

 

 

                                “Os homens, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para começar.”

 

                                                                                                                                    Hannah Arendt

 

 

 

 

Agradecimentos especiais

 

            Escrever este livro foi uma verdadeira Saga: anos de pesquisa, viagens e experiências, mais um ano e meio para colocar todas as diferentes épocas, seus personagens e lendas no papel com tons de fantasia, um ano para revisar, muitos desafios pessoais... Isso não seria possível sem amigos que tomaram para si esse desafio e me ajudaram ou me guiaram no caminho. A vocês, meu humilde e sincero obrigado.

            Ao meu pai, Ari Luiz De Almeida Carneiro, por incentivar incansavelmente, apostar, apoiar e acreditar tanto em mim, principalmente por ter passado a vida me contando histórias.

            A Christina Oiticica e Paulo Coelho, suas presenças são um farol em minha vida. Minhas viagens com a Christina e o que aprendi com ela estão muito presentes nestas páginas. Ao Paulo, o mestre da Lenda Pessoal, por ter feito primeiro; conhecer a vida e obra dele me fez acreditar que era possível, quando eu não tinha ímpeto nem de começar; a coragem dele foi a minha, até que eu a encontrasse dentro de mim mesma.

            A Bruno Ferraz Coutinho, primeiro leitor do livro, ótimo cozinheiro, senhor feudal e ombro amigo, incentivador, crítico, tradutor; nossos chás e revisões entre os cachorros e as cobras, no seu château, foram fundamentais.

            A Rodolfo Muller, pela aquisição da capa do livro e por toda as dicas de imagem e luz. Você ajudou a realizar meu sonho.

            A Ana Luiza Castro e Mônica Castro, por me emprestarem um lugar inspirador em Búzios quando precisei (re)começar a escrever.

            À pesquisadora Doutora Jane Bichmacher de Glasman e a todos pesquisadores, historiadores, arqueólogos e especialistas que generosamente me dedicaram seu tempo, especialmente àqueles que dedicaram sua vida a pesquisas e livros que contribuíram para reconstruir a antiguidade.

            A Paulo e Monica Montano, por toda a sua luz capaz de iluminar as horas mais escuras.

            Andrei Leibovitch, pelo incrível Book trailer; Bruna Barros, por disponibilizar a gráfica para fazer incontáveis cópias até conseguirmos uma editora, e a todos os amigos que participaram dessa jornada de alguma forma, nos últimos anos, vocês sabem quem são e não caberiam todos os nomes aqui, sintam-se lembrados. Eu sei como é desafiador estar perto de alguém vivendo uma saga. Vocês sabem o quanto são importantes para mim.

            As meninas super poderosas que foram verdadeiras assistentes mágicas dessa jornada: Monica Oliveira, Eunice Almeida, Maria José Costa e também a Comunidade Unindo Corações, que foi a primeira a registrar entrevistas e palestras.

            Ao meu editor, que apostou na originalidade num mercado que gosta tanto de copiar.

            A Jesus e São Marcos e toda a egrégora em minha companhia.

 

 

Porta 1

A Suma Sacerdotisa

 

            A brisa batia suave contra os meus cabelos, e a chuva caía fina sobre Campinas. A rua estava escura e vazia, e o único ruído que se ouvia era o do motor do táxi que me havia levado. Pedi ao motorista que me esperasse entrar. Da calçada não se via a casa; construída abaixo do nível da rua, como se tivessem cavado para escondê-la. Via-se somente por entre o gradil, o forro da construção, uma laje de cimento descoberta que parecia esperar um segundo andar ser construído na altura da rua. Uma gárgula sentava sozinha segurando o letreiro luminoso, “Casa de Tarô do Alquimista do Fim Dos Tempos”. Evocando na vizinhança suspeitas e uma necessidade instintiva de evitar aquele lugar, a casa provocava a imaginação, os meninos do bairro criavam fantasias... De vez em quando, elegiam um para bater à porta. Porém, a porta só se abre para quem sabe a senha...

            Apertei o interfone com o coração disparado. Eu já não ia lá havia muito tempo. Desde que decidi virar cantora... Um sonho me avisara para voltar naquela noite. Passava mentalmente as palavras da senha em aramaico, quando uma voz do outro lado me atendeu. Respondi. Um comando interno fez um barulho, e o portão destrancou. Desci as escadas que levavam até o pequeno pátio interno em frente à porta, a cerca de 5 metros abaixo da calçada. De longe ouvi o táxi partindo e cachorros latindo na rua, iluminada apenas por um rastro prateado da lua cheia sobre o cimento, compondo aquele ambiente de subúrbio singelo e aconchegante.

            Talhada na grande porta de madeira da casa, a inscrição “AM–B–TSAPN”, a mesma inscrição do anel de bronze sobre o Santo dos Santos[1] do Templo de Salomão, uma abreviação na língua dos trabalhadores da província da Babilônia que quer dizer: o caminho para tesouros escondidos.

            Acabei dormindo lá, e nas primeiras horas do dia acordei preocupada em não perder a hora para o meu show em São Paulo. Jachim e Boaz, meus irmãos, como nós membros da fraternidade nos chamávamos, levaram-me até o aeroporto.

            Algumas horas mais tarde, eu estava em cima do palco para abrir o primeiro show da turnê mundial do Hebrom’s Project, cantando a Habanera. Estava de costas para o público, mas podia sentir como se a medusa tatuada em minhas costas tivesse olhos, e eu pudesse ver através das cobras em sua cabeça. Naquele dia, tinha uma energia diferente no teatro, não sabia dizer o que, mas era como se eu cantasse para alguém especial; uma sensação de sedução me tomou, e pensei que talvez fosse apenas a energia da ária que cantava: Carmem[2]. Como se a visceral cigana se movesse em sua sedutora ânsia de paixão, cantei para olhos camuflados pela escuridão, e a música ganhou vida, e o público se enlevou ao som de “o amor é um pássaro que voa e ninguém pode segurá-lo”, sobre uma batida eletrônica ao fundo e o violino de Hebrom marcando o compasso ao meu lado.

            O Breu. A luz. A Esperança. O medo. As primeiras palmas. A ovação. A solidão do artista ao sair da ribalta.

            Após o show, eu tinha que comparecer a uma festa na casa de Hebrom. Detesto festas, mas o produtor praticamente me arrastou, porque nossos patrocinadores estariam lá, além de mais meia dúzia de pessoas importantes de gravadoras, as quais eu deveria encantar e sedutoramente agradar, o que não é minha especialidade.

            O som rouco das batidas de Nina Simone[3] atravessava a sala da luxuosa casa nos Jardins. Depois de uma hora fazendo sala, eu já não aguentava mais aquelas pessoas, o lugar, o burburinho das vozes embargadas pelo álcool; queria me esconder... Olhei a porta como um animal acuado que busca uma rota de fuga. Mas Hebrom viria atrás de mim se me visse saindo... Olhei em torno da sala e o encontrei cercado por um grupo de mulheres, que mais pareciam fazer a dança do acasalamento em torno dele. Passei a vista pela casa que eu conhecia tão bem e me esgueirei sorrateiramente até meu cômodo preferido: o salão onde ficava a biblioteca.

            Tateei a parede procurando pelo interruptor, que acendeu a luz fraca da arandela de ferro retorcido imitando uma tocha. Fui até a prateleira iluminada por LEDs, onde ficava exposta uma antiga versão do Kama Sutra, todo desenhado à mão em folhas de arroz. Eu quis acionar o dimmer que acendia a luz no teto, no centro do salão, um lustre imitando um candeeiro medieval preso por correntes de ferro.

            Antes que o acendesse, fui surpreendida por um barulho estranho. Um frio atravessou minha coluna, e me dirigi de volta à porta. Enquanto desviava de estátuas, mesinhas e sofás, comecei automaticamente a murmurar o pai-nosso gravado em meu coração. Era uma mania, quando me assustava, rezava:

 

“...Nethqadash Shmakh

Teytey malkuthakh

Nehwey tzevyanach aykanna d’bwashmaya aph b’arba

ilialHawlan lachma d’sunqanan yaomana...”

 

            – Aramaico? – uma voz me interrompeu. Virei assustada na direção da voz que vinha de dentro do escuro, do fundo da sala.

            Uma luz se acendeu revelando um homem jovem, bonito, sentado numa poltrona, fumando charuto. Ao seu lado, uma escultura de caveira feita de ferro segurava a luminária numa mão e um cinzeiro na outra. Fiquei impressionada por saber que ele estivera ali no escuro. Ele deu uma tragada no charuto antes de falar qualquer coisa.

            – Desculpe, não quis incomodar – falei, já na direção da saída.

            – Imagina, você não me incomoda. Eu que não quis te assustar. Por favor, fique; eu gosto de pensar no escuro – ele apontou a poltrona do outro lado da caveira com a qual Hebrom gostava de me assustar, dizendo que ele tinha mandado revestir os restos mortais da governanta em ferro, após sua morte, para que cuidasse da casa para sempre.            

            Agradeci, mas preferia continuar em pé.

            – Assisti seu show mais cedo, sou Simão.

            – Ariadne. Como você sabia que era aramaico?

            – Como você sabe aramaico?

            – Perguntei primeiro.

            – Uma ex-namorada gostava dessas coisas e aprendi na internet.

            – Eu também, gosto dessas coisas e aprendi na internet.

            Um silêncio constrangedor tomou a sala, e comecei a pensar como sairia de lá sem ser indelicada. Mas a curiosidade foi maior, o que ele faria ali? Achei o interruptor que iluminava a sala, a mais gótica da casa de Hebrom. A luz do candeeiro se acendeu. Grandes estantes de madeira até o teto pintadas de cinza davam a volta no salão. O fundo em vinho ressaltava por detrás dos livros; no alto das estantes, um lindo trabalho talhado na madeira, castiçais nas mesas e tocheiros pelo salão, sofás de veludo vinho contrastavam com o cinza predominante. Hebrom preferia acender as velas para ler, por isso a sala vivia com a luz apagada, escondendo o lindo trabalho gótico do teto em arcos de ogivas como nos castelos antigos: um sistema de abóbadas, cuja estabilidade precisa do equilíbrio perfeito de forças entre todos os arcos.

            – Você deve ser amigo de Hebrom?!

            – Estamos mais para velhos conhecidos, mas hoje temos alguns negócios para tratar.

            – Você é do ramo da música?

            Ele riu charmoso e passou a mão na cabeça, enquanto olhava como se me avaliasse, e sem constrangimento demorou a me responder:

            – Não... Eu costumava vender uma erva grega chamada silfio, mas ela foi comercializada até a extinção, então migrei para um negócio que parece nunca perder a utilidade para a humanidade.

            Pensei, olhando aquele homem lindo no fundo da sala:

            “Que tipo de negócio seria esse, seriam drogas, uma erva grega?”

            – Silfio? O que é isso?

            Ele colocou o charuto no cinzeiro, andou até mim mostrando o antebraço com uma tatuagem e disse:

            – É uma antiga moeda grega cunhada com o desenho da planta.

            Senti-me atraída por aquilo, coloquei o dedo delicadamente sobre a moeda tatuada e, como que sugada por um estranho magnetismo, fui escorregando o dedo por sua pele até o forte punho e delineando o contorno de outra tatuagem: um dragão azul do pulso até a mão... Com a mente indo para longe. Percebi a intensidade com que ele me olhava e tirei a mão rapidamente.

            – E o que é esse material que nunca perde a utilidade?

            – Estanho, ferro e ouro...

            Suspirei aliviada. Por um momento temi que ele fosse um dealer de Hebrom para algum tipo de droga nova, poderosa e grega.

            E então veio o silêncio. Um silêncio confuso e constrangedor. Abaixei os olhos e roí as unhas tentando disfarçar, olhei de novo para ele, de novo para os livros. Ele continuava olhando-me fixamente, até que tentei puxar papo sobre o show e se ele tinha gostado. Ele segurou minha mão e a beijou:

             – Um show maravilhoso, você canta muito.

            Antes que eu pudesse puxar minha mão, tive uma visão: ele de cartola e casaca diante do Palais Garnier[4] numa noite escura e enevoada, suas mãos enluvadas ajudando uma mulher a descer as escadarias. Ela usava um vestido de veludo azul e uma série de voltas num longo sautoir de pérolas do qual pendia um camafeu. Eu tentava voltar, tentava voltar... Lembrava as palavras do alquimista: “Tranquilo: quilibet gubernator est” (qualquer um é timoneiro em mar tranquilo). Controle, controle, controle. Voltei.

            – Suas mãos estão geladas. Você está bem?

            – Sim, sim, desculpe – puxei a mão.

            – Você estava distante, com o olhar fixo.

            – Desculpe, eu estou bem. Tomei um remédio hoje para dor de cabeça, não me fez muito bem, eu acho.

            – Quer ir embora daqui?

            – Detesto festas, mas acho que não vou poder sair sem ser muito mal-educada.

            – Não vai ser não. Você pode sair pelos fundos.

            Eu conhecia a casa, não tinha como sair dali sem entrar na sala. E o pior, eu passara a maior parte dos meus 28 anos treinando para controlar minhas visões, e só de tocar nele... Talvez fosse mais seguro ficar.

            – Teríamos que atravessar a sala de qualquer forma... – desconversei.

            Eu engolia seco, e ele me olhava como se o mar verde em seus olhos pudesse me tragar, eu desviei o olhar antes que me afogasse ali. Estava constrangida, pensei em voltar para a festa. Detestei que ele tivesse invadido meu esconderijo.

            – Acho que vou voltar. Fica chato sumir assim tanto tempo.

            – Se eu fosse você, eu não iria...

            – Como assim?

            – Porque aposto que você não está com a menor vontade de participar dessa festa.

            Olhei sem graça.

            – É, mas preciso...

            – Deixa eu te mostrar uma coisa.

            Ele foi até o fundo da sala, até a última estante de livros encostada na parede, tateou e em seguida puxou e girou algo que parecia uma alavanca, depois puxou uma seção da estante que deslizou sobre um pivô pelo chão. Atrás, uma porta. Ele girou a maçaneta, e a passagem revelou o jardim nos fundos da casa e a garagem.

            – Vou sair pela garagem. Você me acompanha?

            Olhei chocada, eu estive naquela casa e especificamente no salão da biblioteca inúmeras vezes ao longo de 5 anos, como nunca vira isso? Nem nunca vira esse homem antes? Eu queria, sim, fugir dali, mas não com esse estranho misterioso. Por outro lado, pensava em Hebrom me procurando e se arrependendo de ter dado tanta bola para as periguetes o cercando no salão.

            – Indecisa?

            – Não. Pensativa. Amanhã, quando eu tiver que me encontrar com a irritação de Hebrom por ter fugido daqui sem me despedir, o que eu digo que você fez para me convencer?

            – Diga apenas que quis ir embora.

            – Não posso.

            Ele parecia irritado, espremeu os olhos verdes e meneou a cabeça. Andou até uma das estantes procurando um livro. Finalmente achou e começou a folheá-lo. Andou até mim e me entregou aberto.

 

“Claro em pensar, e claro no sentir,

É claro no querer;

Indiferente ao que há em conseguir,

Que seja só obter;

Dúplice dono, sem me dividir,

De dever e de ser”

 

             Fiquei sem fala, peguei-me boquiaberta e me concentrei endireitando a coluna. Queria que ele parasse de me olhar daquele jeito: por dentro.

            – Vocês devem se conhecer há muito tempo, né? Você conhece a biblioteca tão bem!

            – Muito...

            Fechei o livro procurando pela capa, e a folha de rosto era da primeira edição, século XIX: Fernando Pessoa, “A mensagem”.

            Ele estendeu a mão para mim:

            – Vamos?

            Tentei colocar o livro sobre uma mesinha de centro, mas ele segurou meu braço:

            – Ele não vai se incomodar de te fazer um empréstimo.

             Eu sei como Hebrom é apegado as suas coisas. Ele ia odiar, isso sim.

            – Acho que ele vai se incomodar sim.

            – Eu resolvo isso.

            – Acho difícil.

            – Acho que não, ele quer um favor meu, e o livro será o custo. Vamos? É a última chamada.

            Ele estendeu a mão outra vez, e eu fiz que sim com a cabeça, mas passei na frente dele sem pegar sua mão:

            – Vamos!

            Atravessei a porta, e ele me seguiu. Eu já podia ver Hebrom furioso quando entrasse na biblioteca e descobrisse seu quarto especial profanado. Já eu, ia deixar seu grande conhecido de muito tempo explicar...

            – Como você sabia dessa passagem?

            – Hmm... Esse é um segredo que não posso contar. Mas posso te deixar em casa.

            – Vou ficar aqui perto. Não precisa, obrigada.

            – Quer que eu te acompanhe?

            – Mas você não tinha um assunto para conversar?

            – Mudei de ideia.

            – Ok. Pode me acompanhar.

            – Aonde é sua casa?

            – Você vai ver, vai me deixar na porta.

            Andamos até a garagem, e ele abriu o carro de Hebrom procurando pelo controle. Por sorte estava aberto. Quando saímos, ele jogou o controle de volta por baixo do portão. Acho que ele estava tentando despertar uma fera revirando tudo desse jeito.

            – Para onde?

            Apontei para o fim da rua.

            – Você pode andar comigo até a porta se quiser, mas a rua é tranquila...

            Ele me interrompeu:

            – Na porta? Não posso nem entrar?

            – Não.

            – Você mora sozinha numa dessas casas enormes?

            Continuamos andando.

            – Não.

            – Mas vai dormir lá?

            – Talvez sim, talvez não...

            – Vou saber.

            – Como?

            – Vou esperar você sair.

            – Você não tem nada melhor para fazer?

            – Hoje? Deixe-me ver... Não.

            – Vamos nos despedir aqui.

            – Por quê? Chegamos?

            – Queria só sua companhia, eu não quero um espião.

            – Que palavra forte!

            – Como se chama quem segue os outros?

            – Indiscreto.

            – Que palavra suave!

            Ele me olhou por uns segundos.

            – Bem, moça, já vi que terá que ser do seu jeito. Você ganhou dessa vez, vamos.

            – E depois você vai embora?

            – Sim.

            – Não vai esperar. Prometa.

            – Prometo.

            Voltamos a andar por mais um quarteirão até chegarmos.

            – Obrigada, é aqui.

            Chegamos à frente da casa, onde altos muros cor de gelo sustentavam uma discreta inscrição em dourado: O Alquimista do Fim dos Tempos – Casa de Tarô de São Paulo.

            – É uma loja? Nunca vi uma loja num bairro tão residencial.

            – Você prometeu...

            Ele me abraçou e tentou me beijar. Virei o rosto:

            – As melhores coisas são as costuradas pelo tempo.

            – Ah, pode ter certeza, eu sei...

            – Te espero entrar?

            – Não, obrigada.

            – Nos vemos?

            – Nos vemos.

            – Você é linda, interessante, canta bem, mas é a mulher mais misteriosa que eu conheço.

            – Uau! E perco muito com isso?

            – Não, ao contrário. Fica mais fascinante.

            – Posso pedir seu telefone?

            – Pede para o seu velho conhecido...

            – Ele não vai me dar.

            Respirei fundo. Passei o número sem esperar ele decorar, nem gravar no celular, e entrei.

            Da janela, esperei que ele virasse de costas e sumisse rua abaixo para eu entrar no meu mundo.

 

 

 

Porta 2

Hebrom, o Corvo

 

            O quarto era escuro. Frio. Poucos móveis. Muitos artefatos antigos pelas paredes. A cama, redonda. Ficamos lá por algumas horas. Conversando. Beijando. Desnudando. O corvo pousou na janela. Ele me incomodava. Ele não parava de piar. Será que ele não tinha visto?

            – Você está vendo? Um corvo!

            Ele olhou o animal com indiferença e se jogou na cama. Riu para mim, sedutor, enquanto se acomodava deitando sobre mim, com a cabeça em meu quadril. Passei a mão em sua pele e percebi manchas. Continuei descendo a mão lençol abaixo, até o quadril, para vê-las. Nunca antes havíamos feito nada numa cama. Nunca antes havíamos tirado a roupa com as luzes acesas. Nunca antes vira manchas negras sobre a sua pele alva. Não tinham aspecto ruim, só eram estranhas. Não pareciam alergia. Passei o dedo delicadamente sobre uma das manchas pretas na pele. Era parte da pele, como um cavalo malhado, branco com manchas negras. Ele percebeu. Sentou. Eu continuei em seu colo olhando. Nossos olhares se cruzaram em silêncio:

            – Minha pele tem manchas negras.

            Olhei de novo para o animal na janela. Seus olhos negros me atravessavam por dentro. Um frio subiu minha coluna. O medo me fez olhar o quarto com mais atenção: os símbolos cravados na parede eram iluminados por lâmpadas especiais, como se fossem quadros. Uma série de desenhos de símbolos e letras dentro de círculos. Armas antigas ocupavam uma estante escavada na parede de pedra e protegida por vidro. Não pareciam antiguidade. Eram coisas velhas, como se carregassem uma capa de poeira do tempo. O corvo piou. Ele colocou as mãos sobre meus ombros e disse:

            – Relaxe.

            Foi como se ele tocasse meu corpo pela primeira vez e, constrangido, meu ombro respondesse, estranhando a mão. Ele me puxou pelo quadril. Virou-me na cama. Deitou sobre mim. Vi a estrela de Salomão no teto. Empurrei-o suavemente. Sentei nua na cama e coloquei a bota. O corvo voltou para o batente da janela.

            – Ele é seu?

            – Não. Mas nunca fecho a porta na cara de uma visita. Vou deixar ele aí.

            – É por isso que não se incomodou quando seu amigo entrou sem avisar ontem?

            – Não é bem assim. O corvo não abre a porta secreta e leva minhas coisas! – podia ver a irritação no tom da sua voz.

            Levantei. Sentei na cama. O corvo piou. Então era por isso aquele romantismo repentino, estava marcando o território das suas “coisas”. Hebrom passava a mão pela tatuagem nas minhas costas da base do pescoço até o cóccix, acariciava as cobras na cabeça da medusa uma a uma até me arrepiar. Levantei contendo a irritação. Terminei com a bota. Andei até o sofá, pus o cachecol e depois o vestido. Olhei-o:

            – Tenho que ir.

            O corvo piou.

            – A chave está na porta. É só bater.

            – Ok. Você vai ficar bem?

            – Da perna?

            O corvo piou.

             – É. Claro. Como vamos fazer um show com você mancando, Hebrom?

            Ele apontou uma espada na parede.

            – Eu e Asham[5] estávamos enferrujados demais para uma luta, só isso. Mais uns dias e estarei zerado.

            Achei melhor não perguntar agora. Mas pensei:

            “Espada?!”

            Bati a porta do quarto. O corvo piava ininterruptamente. Lá fora, minha cabeça repetia sem parar... Sobre ele, sobre mim, sobre nós, sobre o meu segredo. Ficar ou ir? Ficar ou ir? Ficar ou ir?

 

 

 

 

 


[1] Uma sala do templo de Salomão onde ficava guardada a Arca da Aliança.

[2] Carmem, cigana, personagem principal da ópera de mesmo nome.

[3] Cantora, compositora e pianista americana de jazz.

[4] Palais Garnier ou Ópera Garnier é uma casa de ópera construída em Paris por Luís XIV.

[5] Pecado pela culpa percebida tardiamente.

Código de Barras:
9788588121645